O mundo da música clássica sempre foi um reduto masculino. Sobretudo na Europa, onde maestros renomados escreviam artigos dizendo que as mulheres “não tinham força, presença ou capacidade” para tocar certas peças. As instrumentistas eram solenemente desprezadas nas audições e muitas já nem perdiam tempo tentando participar dos concursos.
Há quarenta anos, porém, um episódio mudou a história da presença feminina nas maiores orquestras do mundo. No verão de 1980, a trombonista americana Abbie Conant se candidatou a um das vagas em onze diferentes orquestras europeias.
Só teve uma resposta, justamente de sua orquestra preferida: a Filarmônica de Munique. A carta do convite, porém, a tratava pelo gênero errado. Era dirigida ao “caro Senhor Conant”. No dia marcado, Abbie viajou para fazer o teste que disputou com outros 32 candidatos homens.
Entre eles, o filho de um dos membros da orquestra, razão pela qual foi colocado um biombo durante a audição em nome da imparcialidade do comitê de escolha.
Abbie executou o Concertino para Trombone, de Ferdinand David.
Numa entrevista, anos depois, ela disse que percebeu ter errado uma nota e que já estava guardando seu instrumento para ir embora. O diretor da Filarmônica, o maestro romeno Sergiu Celibidache, não concordou.
“É desse artista que precisamos”, ele disse, antes de dispensar os demais candidatos.
Quando ele e seus assessores foram conhecer o “escolhido”, houve decepção geral: o “senhor Conant” na verdade era uma trombonista de 24 anos e cabelos ruivos.
A Filarmônica de Munique sempre foi uma instituição tradicionalista e masculina. Havia poucas mulheres no quadro da orquestra e nunca houve uma trombonista.
Os compositores de Ópera usam o trombone para simbolizar o submundo. O instrumento sempre foi considerado eminentemente masculino, tocado por homens em bandas militares. Para Celibidache, uma mulher não poderia tocar trombone. Houve mais duas rodadas de audições e Abbie foi perfeita em ambas. Em razão do regulamento do concurso, foi contratada.
A contragosto do diretor, que a partir de então passou a persegui-la. Abbie foi rebaixada para segundo trombone e o maestro lhe disse pessoalmente, que “era preciso ser homem para ser o primeiro trombone”.
Ela não aceitou a decisão sexista e entrou na Justiça para garantir seu lugar. Na contestação, a Orquestra alegou que ela “não tinha força física para liderar o naipe de trombones”. Abbie então se submeteu a uma perícia na Gautinger Lunger Clinic onde mediram sua capacidade pulmonar de todos os jeitos e constataram sua capacidade muito acima da média de seus colegas homens.
Depois de oito anos de processo, ela conseguiu reassumir o posto como primeira trombonista. A direção teve que engolir, mas seguiu pagando um salário abaixo do que os colegas masculinos recebiam. Ela teve que recorrer à Justiça outra vez e venceu novamente.
Treze anos e muita luta depois, ela assumiu o seu lugar, mas o fato é que não fosse o raríssimo biombo para evitar o nepotismo naquela audição, ela teria sido dispensada de plano, apenas por ser mulher, como tantas outras antes dela.
O caso Conant abriu um precedente mundial. Nos Estados Unidos, a notícia apareceu na imprensa no mesmo tempo em que os músicos começavam a se organizar em sindicatos. Entre as reivindicações dos músicos estava a exigência da colocação de biombos em todas as audições das principais orquestras americanas.
Como resultado da medida, o número de mulheres nas orquestras quintuplicou em 30 anos segundo levantamento do jornalista Malcon Gladwell da revista New Yorker. Quatro décadas depois, a revolução do trombone de Abbie Conant é visível no mundo todo.

No Paraná, temos o Grupo Orquestral Ladies Ensemble, primeira orquestra feminina profissional do Brasil que se apresenta desde 2008.
Em 2017 e 2018, a Ladies Ensemble foi a atração do Concerto das Rosas, numa parceria da Unicultura em promover por meio da arte a conscientização pela causa do câncer de mama.
Em dois anos de circulação, o Concerto de Rosas passou por treze municípios de regiões diferentes do Paraná em apresentações para mais de 300 mil pessoas. Para conhecer mais o projeto visite https://www.unicultura.com.br/project/concerto-das-rosas/